Ana Lúcia Franco
Seleção de poemas do livro Esbath (Poesia Pura), ed. Stella 2025
DÉCIMA NONA EDIÇÃOPOEMA
8/12/20263 min read


Capitu
Ele que a criou tão bela
saída do mar, uma pérola
encanto, pálida aquarela
olhos de ressaca, procelas
em mares verdes, distantes,
Capitu dos olhos do Mestre
Machado de Assis, eterno Dante.
Mago das letras, que fizeste?
Do pensar turvo de tua gente
esculpiu prosa, canto e verso
vivos mais de século presentes.
Sarcástico, fez-se eterno
teus epigramas, tua galhardia:
Machado, impossível te tornares ausente.
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A outra margem (diálogo)
À Clarice Lispector
Estou na margem
onde tua lua mais íntima
cintila o inverso
do teu sol interno.
Colho teu mais estranho narciso n’algum
recesso teu desconhecido: ouso mirá-lo!
por que não mergulhas mais um pouco?
falta-me fôlego
toma-me o fôlego, empresto-te
e nem sei se quero.
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Película
Paisagem
tão longe
tão perto
Película de terra
que a língua do céu envolve
a língua do véu encobre
e ao léu desata
o pretenso sonho humano.
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Um poema antigo
Não mais as funestas flores de aço
daqui há um sol que sempre nasce
ainda que se ponha a fogo e sangue
sob o feérico punhal do crepúsculo.
Não mais as sementes de romã
que ardem nos lábios – até memso
os mitos renascem e se modificam
no tempo que os regenera ou recria.
Daqui uma réstia de luz é capaz
de se expandir até que a circunferência
azul se agasalhe na vastidão ilusória
e há cantos doces de lindos pássaros
e há margaridas de maio pelas manhãs
que cada vez mais se infundem n'alma.
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De papel
De papel o barco
que desliza pela superfície
no fluxo do tempo
e do espaço.
Frágil, apesar da estrutura
ágil, apesar das rugosidades
e do final do leito do rio
que desemboca no oceano.
Arma-se pelas frestas de luz
enquanto pressente a noite.
Ah! De papel, o barco
que desliza pela superfície.
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O piano
Fim de tarde dia se doura
desprende do tempo
crepúsculo em sépia sempre raro
o que ficou a fazer pendências do dia:
adiós
noite e seu balé para dentro
magma de sonhos
secreto fecundar do espírito
vaga-lumes estrelas em fábulas
e a lua - branca-tecla do piano
que toco e ressoa.
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O milagre
Uma pedra lançada no canal do Jardim de Alah
faz reflexos e assusta os fantasmas
que perambulam presos à belle époque, aos anos
trinta, aos anos sessenta,
sedentos por existir onde poucos ousam existir.
Onde se espera a vinda do Cristo
onde, no poema, não há poesia,
onde a comida não alimenta
onde, na arte, não há beleza
onde, na música, não há melodia
e tantas pessoas precisam ser curadas
onde não parece haver cura.
Até que o milagre aparece refletido
nas águas da praia do Arpoador
- e é tão fugaz
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Tumulto
Entre o alfa e o ômega
tumulto de espelho
diamantes líquidos
tapetes de asfalto
cuida
de não deixar pegada
entre o alfa e o ômega
entre o princípio e o fim
cuida de ser
nada
na grande lacuna de esquecimento
espelhos refletem diamantes líquidos
evolam hálitos de anjos e demônios.
Entre o alfa e o ômega
cuida de não
deixar marca.
Entre o princípio e o fim
passe apenas
sem pena
sem cena
passe.
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Fusões
a lua funde-se às luzes da cidade
reflete-se nas poças de chuva
o sonho passeia pela tarde
funde-se ao corpo
toca as íntimas águas sentidas
o sol passeia pelo horizonte
confunde-se com o tempo
toca as íntimas fibras
da realidade
a morte passeia pela vida
confunde-se com a noite
toca os desvãos
anula as sobras.
A vida passeia pelas mãos
confunde as linhas já traçada
toca a eternidade.
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Esbath
Barulha vento barulha
é noite de lua nova:
as feiticeiras em transe dançam
no limiar dos mundos.
É noite de lua nova,
barulha vento barulha
ecoa o canto, o choro, o riso
tênues os véus que separam os mundos.
As feiticeiras em transe dançam
é noite de lua nova,
barulha vento barulha
o céu tem cor de chumbo.
No limiar dos mundos
as feiticeiras em transe dançam
barulha vento barulha
é esbath no limiar dos mundos.
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Passeio
Árvores antigas, mata fechada.
Relógio dava meio dia de sol
silêncio, parecia madrugada
folhas secas, piso de arrebol.
Caminhava meio gente e fada
pé no além outro na estrada
de areia feita por não sei quem
seguia esquecida de ser alguém.
Súbito, percebeu, notou que
era árvore, pedra, silêncio, quimera
mistério, arquétipo e essência
e tudo com generosidade tangia.
Ali, diferente da que havia,
era pura vertigem, resplandecência.
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Ana Lúcia Franco é poeta e cronista. Graduada em direito e mestre em filosofia, publicou: Versinho Lilás, Lili e o Jabuti, Esbath e Alguns Castelos de Outros Desfeitos, todos livros de poemas pela sua editora Stella. Edita a revista Stella.