Ana Lúcia Franco

Crônica: Do sonho ao empréstimo e ao vazio.

CRÔNICADÉCIMA OITAVA EDIÇÃO

7/20/20263 min read

Sempre que vejo o livro do Giovanni Reale, “Para uma nova interpretação de Platão”, me dá uma tristeza, um vazio. Já tive este livro e o emprestei para o filho de uma amiga. Isso há muito tempo. Nunca mais vi o livro novamente. É.

Eu fazia mestrado em filosofia. Encontrei o rapaz na biblioteca da universidade. Ele me disse que seu sonho era fazer filosofia. Sonho? Pareceu convincente. Achei curioso o termo “sonho”. Foi exatamente o que ele usou. E isso me enterneceu. Disse que adorava filosofia grega. Hum. É a base de tudo. Disse-me que queria um direcionamento. Nunca passara nem no vestibular.

Não sei o que me deu. Emprestei o livro de Giovanni, que é o mais completo em língua portuguesa sobre Platão e ainda dá uma noção sobre filosofia grega clássica. Não sei se àquelas alturas iria auxiliá-lo a passar no vestibular.

Ele espichava o olho para o livro. Era como se de suas pupilas saíssem duas cordas que enlaçaram o livro. Ele desejou o livro intensamente, embora não tenha dito uma palavra. Percebi o movimento do desejo dele. E cedi. Por que não auxiliar alguém que "adora" filosofia grega?

Era uma tarde dessas de sábado em que eu gostava de ir para a biblioteca da Unb. Lá tinha o silêncio necessário para desenvolver atividades de estudo e de leitura. No café, encontrei o rapaz. Filho de uma amiga que foi mãe praticamente na adolescência. Ainda me lembrava do que ela passou para levar a gravidez adiante. A família queria que ela sumisse por uns tempos e aparecesse como se nada tivesse acontecido. Mas ela insistiu em ter a criança. E de repente vejo aquele belo rapaz, na biblioteca, dizendo que "sonhava" em fazer filosofia. Quis ajudá-lo de alguma forma.

Quem hoje em dia sonha cursar filosofia e tenta passar, sem êxito, num vestibular que nem é concorrido? Eu estava com o exemplar do livro nas mãos. É um livro de linguagem fluida, acessível. Sem aqueles jargões. Ah, quer saber, dá uma lida aí. E entreguei o livro para o rapaz.

Pouco depois, ele tiraria fotos, sublinharia trechos, postaria em redes sociais. Que ótimo. Está aproveitando, pensei. E os meses foram passando. Coisa de mais de um ano depois do empréstimo, o livro ainda não havia sido devolvido. E eu estava precisando para elaborar uma palestra. Ocorreu-me cobrar o livro. Um ano depois, não era possível que ele não tivesse acabado de lê-lo. Ou melhor, era possível sim. É um livro de muitas páginas, um tijolão. Embora com linguagem acessível, é cheio de detalhes. Poderia ser, sim, que o rapaz não tivesse acabado de lê-lo.

- E aí, está gostando do livro? Perguntei a ele. Liguei para ele, nem mandei mensagem.

- Gostando muito, ele respondeu. O livro é ótimo. Mas não terminei ainda, ele disse.

Está bem.

Passou-se mais um ano e nos encontramos, casualmente, desta vez na Unieuro.

- E meu livro, rapaz?!

- Você não vai acreditar, eu já ia te dizer: esqueci o livro numa viagem que fiz para Pirenópolis. Não me lembro onde deixei, se na pousada, no restaurante, na cachoeira. Quando cheguei a Brasília o livro havia sumido. Voltei, ainda, para buscar. Mas evaporou.

- Evaporou?! Um livro?! Que coisa.

Aceito outro, novo. Se bem que não é tão fácil de encontrar o livro. E é caro. Mas tudo bem. Pelo menos deve ter feito bom proveito. Deve ter lido tudinho. E sua paixão pela filosofia cresceu, quem sabe. Seu sonho teria virado realidade? E puxei conversa sobre Platão:

- E aí, o que me diz sobre o mito da caverna? Considera uma metáfora da sociedade contemporânea?

O constrangimento era evidente no olhar dele, que começou a falar sobre o mito da caverna e não dizia nada com nada. Peraí. Mas você leu mesmo aquele livro? Perguntei. Claro que li, ele respondeu. E eu acreditei que ele tivesse lido. Mas leu tão superficialmente ou mecanicamente que não compreendeu nada. Não absorveu. Não refletiu. A leitura não provocou qualquer transformação nele. Como se tivesse lido num nível superficial. Não que fosse incapaz de ler mais profundamente. Não que fosse incapaz de absorver o que estava lendo. Na realidade, não sei o que se passou. Fato que ele não conseguia conversar sobre Platão. Não havia compreendido a metáfora basilar da filosofia platônica, o mito da caverna. Não basta ler. Compreender e se transformar pela leitura é fundamental. Quase disse a ele, mas deixei para lá.

De tudo, carrego a dor de nunca mais ter visto meu livro predileto sobre Platão.

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Ana Lúcia Franco é graduada em direito e é mestre em filosofia. Tem quatro livros de poemas publicados: Versinho Lilás, Esbath, Lili e o Jabuti e Alguns Castelos e Outros Desfeitos, editados pela editora Stella. Edita a Revista Stella.