Alexandra Vieira de Almeida

2033: Prosa poética escolhida pela autora

5/27/20262 min read

2033

Alexandra Vieira de Almeida

Um sonho. Futuro. 2033. Parecia tão real como meu corpo. Casas e prédios trancados a partir das 18 horas. Ninguém podia mais sair à rua. Para a contenção da violência e mendicância. Rua deserta. Nenhum carro, moto, ônibus. Tudo monitorado pelo sistema central dentro de uma alta torre. O panoptismo.

De manhã, o horário estipulado para a saída. 6 horas. Transportes separados para homens e mulheres, tanto táxi como ônibus. E dirigido pelo representante do sexo a conduzir aquelas pessoas separadas, tanto o masculino quanto o feminino. E os gêneros diversos, como ficariam? Não pude distinguir essa divergência no meu delírio onírico que mais parecia um pesadelo a me conduzir a outras paragens.

A ferrugem tinha sido extirpada do vocabulário dos objetos. E eu que pensava no paraíso dissonante em que todas as diferenças se reuniriam num banquete de liberdade e confluência!

No dia do grande “sê conosco” levantaríamos as mãos aos céus e diríamos: – Clamor. Ou: – Amor.

Acordo na madrugada trágica. Estou quente como um incêndio planetário. Molhada como o rio da vertigem.

Só vejo da minha janela: o olhar de Deus interrogando minha crença em desejos atávicos e celestes.

Enquanto na caixa-preta de meu pesadelo, como um buraco negro a me absorver no seu azedume pegajoso, quisesse exorcizar todos os meus medos no futuro.

Mas o que vivo é um presente, não como uma caixa de Pandora, mas como um baú rico de tesouros, no qual as memórias se esvaem, restando apenas o filho pródigo que voltou do escárnio e desprezo e reencontrou o lar, ou seja, o idílio de sua crença mais plena do brilho eterno do agora, feito carne e espírito.

As fagulhas das estrelas crescem no contorno de meus olhos, as pérolas da imaginação abrilhantam meu corpo de vazios, agora com fome das horas que escapam de meus dedos ágeis e libertos ao som de passarinhos fora das gaiolas domáveis da prisão de um mundo dantesco.

2024. Esse é o ano em que recolho o orvalho do enaltecimento de mim, não com o orgulho ferino da jactância e da vaidade, mas como autoconhecer a sobremesa que me cabe: – Os olhos de dentro que me veem desaparecer do que me rodeia e me deixam viajar pelos mapas de minha pele diurna e noturna em que me entrego ao éden de meu interior.

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Alexandra é professora da rede estadual do Rio de Janeiro. Foi tutora a distância durante oito anos da faculdade de Letras do Consórcio Cederj/UAB– UFF. É doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Completou um estágio pós-doutoral na UnB e atualmente está fazendo outro pós-doc na PUC-Goiás. Tem oito livros de poemas publicados. O mais recente é A mecânica da palavra (2022, Penalux). Possui poemas e contos traduzidos para vários idiomas.