A poesia de Raquel Gaio
Três poemas extraídos do Livro, Das chagas que você não consegue deter ou a manada de rinocerontes que te atravessam pela manhã, Editora Patuá,
DECIMA TERCEIRA EDIÇÃOPOEMA
3/14/20262 min read
Raquel Gaio:
Raquel Gaio nasceu e reside na cidade do Rio de Janeiro. Licenciada em Letras -Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRJ, atua nas áreas da poesia e artes visuais. Seu trabalho parte de uma poética da intimidade ao escavar sua genealogia, o seu abismo, utilizando a palavra, a imagem, o corpo e os objetos para a construção de sua própria identidade. Fonte: site editora Patuá.
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entupida de orfandade,
abro o dorso com uma espátula que atravessa minha altura
e encontro lá um escaravelho antigo
edemas não tratados um sol sangrando no pulmão
uma contusão sempre pontual
carne, boca, nervo, tudo deserto esplêndido
um estonteante animal deficiente
um cheiro violento sai da minha carne
e as vozes dos meus pais são como um rinoceronte na minha medula
sou atravessada em todas as idades
já contou de quantas vértebras somos feitos?
qual gesto evoca a ausência que há em mim?
meus verbos são nódulos que afundam de delírio
e nas minhas bordas estão costuradas as datas de suas vertigens
qual a espessura da tua mudez?
arar essa terra pagã como a única salvação
fazer com que as cicatrizes sejam mais importantes que as palavras.
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vi outro dia
um cavalo semimorto no meu nome
no corpo dele, a mensagem: quanto tempo resistimos agonizando?
as unhas parecem cozer o tempo
e a fé é uma grande ressaca
uma longa crina nubla nossa visão
temos o olho doente da mesma paisagem
há um grande abandono por aqui
um terreno baldio uma rodovia abismo
artérias inchadas de barrancos
mas (quase) ninguém vê
sabes que nossos nomes são grande uma invenção
mas o corpo, o precipício de toda espera.
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eu queria escrever como um caracol
tem um túmulo dentro de cada um de nós
em alguns, a coroa de flores nunca chega
gosto de passar por dentro das coisas
mas há uma isca em meu ombro que engancha na quina de uma
[cômoda
com os cílios pintados
escuto de um ser que caminha com as mãos
que os tempos são de planícies bordadas no medo
há um papai noel manco passeando no meu corredor.

