A poesia de Filipa Leal

Poemas extraídos do Livro A Cidade Líquida, Editora Moinhos, 2022

DECIMA TERCEIRA EDIÇÃOPOEMA

3/2/20265 min read

A CIDADE LÍQUIDA

A cidade movia-se como um barco.

Não. Talvez o chão se abrisse em algum lado.

Não. Era a tontura. A despedida. Não.

A cidade talvez fosse de água.

Como sobreviver a uma cidade líquida?

(Eu tentava sustentar-me como um barco.)

As aves molhavam-se contra as torres.

Tudo evaporava: os sinos, os relógios, os gatos, o solo.

Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis

na soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam

as paredes das coisas. Os marinheiros invadiam as tabernas.

Riam alto do alto dos navios. Rompiam a entrada dos lugares.

As pessoas pescavam dentro de casa.

Dormiam em plataformas finíssimas,

como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os lábios.

Não viam. Amavam depressa ao entardecer.

Era o medo da morte. A cidade parecia de cristal.

Movia-se com as marés.

Era um espelho de outras cidades costeiras.

Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas.

Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o.

Os habitantes que a viam aproximar-se ficavam perplexos

a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e de falta de ar.

Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior das casas.

Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram soltar as cordas da cidade.

Agora partiam com ela dentro de uma cidade líquida.

(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)

................

SE AO MENOS A MORTE

Ela morria tantas vezes

em tiroteios à porta de casa

que já não sabia morrer para sempre

assim

de uma vez só.

Se ao menos se marcasse um dia

para a morte, uma hora certa

como no dentista

que apesar de tudo

nos faz esperar

onde apesar de tudo

não sabemos quando será a nossa vez.

Se ao menos a morte tivesse revistas

e gente na sala de espera

não estaríamos tão sós

tão vivos nessa ideia final

nesse desconforto.

Poríamos o nome na lista

quando estivéssemos prontos

sabendo que seria fácil desmarcar

marcar para outro dia

ou simplesmente não comparecer.

Depois, ficaríamos com a dor,

com o terror

de passar sequer naquela rua

como ela à porta de casa.

Ela que morria tantas vezes

porque morria de medo de morrer.

...........

NO FUNDO DOS RELÓGIOS

Demoro-me neste país indeciso

que ainda procura o amor

no fundo dos relógios,

que se abre

como se abrisse os poros solitários

para que neles caiam ossos, vidros, pão.

Demoro-me

no ventre desta cidade

que nenhum navio abandonou

porque lhe faltou a água para a partida,

como por vezes desaparece

a estrada que nos conduz aos lugares

e ali temos que ficar.

...................

AS AVES DE HOJE

À Joana Oliveira.

Tendencialmente tristes,

as aves de hoje paradas no olhar.

O voo não chega

aos braços dos homens:

as asas ferem-lhes o rosto, cegam-nos.

Tendencialmente tristes,

os homens de hoje tiram penas

dos olhos.

Ficam comovidos e parados no olhar

das aves.

Ficam em terra.

Só um pássaro se anuncia,

veloz,

contra o céu.

.........

Filipa de Mira Godinho Grego Leal nasceu em Porto (1979) é uma escritora, poetisa, argumentista e jornalista portugesa.

Formou-se em jornalismo na Universidade de Westminster, em Londres (BA (HONOURS) – first-class honours degree - Media Studies) e concluiu o mestrado em Estudos Portugueses e Brasileiros na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Publicou o seu primeiro livro, «lua-polaroid» (conto/ficção), em 2003, e estreou na poesia no ano seguinte com «Talvez os Lírios Compreendam» (Cadernos do Campo Alegre). Seguiram-se, na editora Deriva, «A Cidade Líquida», «O Problema de Ser Norte», «A Inexistência de Eva» (finalista do Prémio Correntes d’Escritas) e «Vale Formoso» (2012). Em 2014, publicou "Adília Lopes Lopes", pela não-edições; em 2015, o manifesto "Pelos Leitores de Poesia" (ed. Abysmo). Seguiram-se «Vem à Quinta-feira» (2016, ed. Assírio & Alvim, já na 5ª edição), e «Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano», em 2019, (ed. Assírio & Alvim, na 3ª edição), ambos finalistas do Prémio Correntes d’Escritas e Semi-Finalistas do Prêmio Oceanos. Em 2020, editou o seu primeiro livro de teatro: "O Quadrado de F." (não-edições).

Está editada em Espanha («La Ciudad Líquida», ed. Sequitur, Madrid, 2010); na Colômbia («En los días tristes no se habla de aves», ed. Tragaluz, Medellín, 2016); e em França (com a plaquete “La Ville Oubliée”, ed. Cahiers de l’Approche, Angoulême, 2021). Em 2022, saiu a sua primeira edição no Brasil («A Cidade Líquida», ed. Moinhos, Belo Horizonte, 2022). Em 2024, foi editada na Polónia (com o livro “Fósforos e Metal sobre Imitação de ser Humano”- “Zapałki i metal na imitacji materii ludzkiej”, ed. Lokator) e no Luxemburgo (em edição bilingue Português-Francês, com o livro "Vale Formoso", ed. Phi). Em 2025, saiu a sua primeira tradução na Grécia (com o livro “A Estrada para Firopótamos”, ed. Vakxikon).

Tem colaborações dispersas em vários jornais e revistas (Egoísta, MeaLibra, INÙTIL, Colóquio Letras, Textos e Pretextos, Flanzine, Eufeme, entre outras). Está representada em diversas antologias em Portugal (destaque para a edição de 2012 da FNAC, «O Prazer da Leitura», com o conto "Isabel") e no estrangeiro (Venezuela, México, Bulgária, Grécia, Países Baixos ou Eslovénia).

Em 2010, teve um dos seus poemas exposto no Metro de Varsóvia, na iniciativa «Poems on the Underground». Em 2012 e 2014, representou Portugal em encontros literários na Alemanha – no Festival de Poesia de Berlim 2012 e na Conferência dos Escritores Europeus 2014/Long Night of European Literature, no âmbito da qual fez uma leitura dos seus poemas no Deutsches Theater. Em 2016, o seu poema "Hoje, também os carros dançam" integrou uma instalação sonora europeia na British Library, em Londres; e, em 2023, o poema “Quanto tempo para o intervalo” esteve exposto na Polónia na iniciativa “Poems in the City”.

Em 2021, a compositora colombiana Mónica Giraldo adaptou um poema seu (“Digo-te por Isso”/ “Te Digo por Eso”) que interpreta no álbum “Hubo um Tiempo”. No mesmo ano, Filipa Leal atreveu-se nas primeiras letras de canções: “Mudar de Canção”, a convite da banda The Happy Mess, já lançada no disco “Jardim da Parada”; e “Ferida”, adaptação livre de “Fever” (imortalizada por Peggy Lee), a convite de Mafalda Veiga para o seu concerto SOLO.

Em 2013, depois de uma formação em escrita de argumento na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, escreveu e encenou a sua primeira curta de teatro. «Morrer na Praia» estreou em Lisboa, no Teatro Rápido, e passou pelo Teatro do Campo Alegre, no Porto. Em 2014, encenou «A Inexistência de Eva», e a sua segunda micro-peça de teatro, «Cama de Gato», integrou o Festival de Curtas dos Primeiros Sintomas, no Cais do Sodré, com encenação de Pedro Lamares. Escreveu ainda a sua primeira longa de teatro (musical infantil) - “A Volta ao Mundo em 60 Minutos” - para a Elenco Produções, que esteve em cena no Teatro Municipal de Vila do Conde, no CAE (Figueira da Foz) e no Europarque (Santa Maria da Feira), com 16.484 espectadores em oito dias.

Em 2014, desenvolveu o seu primeiro guião para longa-metragem de cinema, realizada por Patrícia Sequeira. O filme JOGO DE DAMAS estreou no Lisbon & Estoril Film Festival, 2015, e nos cinemas em Janeiro de 2016, e recebeu o prémio Golden Aphrodite de Melhor Guião no Festival de Cinema do Chipre (2016) e o Prémio de Melhor Guião no International Monthly Film Festival de Copenhaga (2017). (Fonte Wikipédia).