Cinco poemas de Florbela Espanca

Extraídos do livro Charneca em Flor, publicado pela primeira vez em 1931.

POEMADECIMA EDIÇÃO

1/6/20263 min read

Noitinha

A noite sobre nós se debruçou...

Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!

O luar, pelas colinas, nesta hora,

E água dum gomil que se entornou...

Não sei quem tanta pérola espalhou!

Murmura alguém pelas quebradas fora...

Flores do campo, humildes, mesmo agora.

A noite, os olhos brandos, lhes fechou...

Fumo beijando o colmo dos casais...

Serenidade idílica de fontes,

E a voz dos rouxinóis nos salgueirais...

Tranqüilidade... calma... anoitecer...

Num êxtase, eu escuto pelos montes

O coração das pedras a bater...

Espanca, Florbela. Charneca em flor (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.

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Outonal

Caem as folhas mortas sobre o lago;

Na penumbra outonal, não sei quem tece

As rendas do silêncio... Olha, anoitece! -

Brumas longínquas do País do Vago...

Veludos a ondear... Mistério mago...

Encantamento... A hora que não esquece,

A luz que a pouco e pouco desfalece,

Que lança em mim a bênção dum afago...

Outono dos crepúsculos doirados,

De púrpuras, damascos e brocados! -

Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,

Das magníficas noites voluptuosas

Em que eu soluço a delirar de amor...

Espanca, Florbela. Charneca em flor (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.

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SER POETA

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...

É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda gente!

Espanca, Florbela. Charneca em flor (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.

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Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: Aqui... além...

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...

Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder... pra me encontrar...

Espanca, Florbela. Charneca em flor (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.

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Minha Culpa

A Artur Ledesma

Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem

Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem...

Sou um reflexo... um canto de paisagem

Ou apenas cenário! Um vaivém...

Como a sorte: hoje aqui, depois além!

Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem

Dum doido que partiu numa romagem

E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...

Uma estátua truncada de alabastro...

Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,

Num mundo de vaidades e pecados,

Sou mais um mau, sou mais um pecador...

Espanca, Florbela. Charneca em flor (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.

Florbela Espanca (1894–1930) foi uma importante poeta portuguesa do início do século XX, conhecida pela intensidade emocional e pelo tom confessional de sua obra. Nascida em Vila Viçosa, teve uma vida marcada por conflitos familiares, amores frustrados e problemas de saúde, experiências que atravessam seus poemas com temas como solidão, desejo, feminilidade e inconformismo.

Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o ensino superior, estudando Direito em Lisboa. Sua poesia, de forte carga subjetiva e simbolista, explora a busca de identidade e liberdade feminina em uma sociedade conservadora. Entre suas obras mais conhecidas estão Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923) e Charneca em Flor (1931, publicado postumamente).

Florbela morreu cedo, aos 36 anos, mas tornou-se uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa, admirada até hoje pela intensidade lírica e pela força de sua expressão poética.

Imagem: Copilot