Amor em Tempos de IA

CRONICA ANA LUCIA FRANCO

CRÔNICA

1/9/20264 min read

Presenciamos um assombroso avanço tecnológico enquanto a humanidade ainda se debate com velhos problemas emocionais, afetivos, existenciais. Ao nosso redor, a tecnologia avança e somos ridiculamente os mesmos. Desbravam-se fronteiras tecnológicas e ainda somos tão frágeis, vulneráveis, afetivamente carentes. O que não é exclusividade das mulheres. Homens também. Talvez mais raro, mas pode acontecer de algum homem ludibriado, crente num romance com Angelina Jolie, que se iniciou pela internet, pelo Facebook, ah, que antro.

Viram o Brad Pitt de Erechim? Caso não conheçam, só jogar no google Brad Pitt e Erechim que as informações jorram. Um enlouquecido pêndulo entre o trágico e o cômico.

Uma senhora aparentemente respeitável. Aposentada de 54 anos. Ah, não digam que é uma idosa. Nada de etarismo. Uma pessoa de 54 anos pode estar distante do estereótipo de um idoso inválido. E não é porque tem 54 anos que não conhece os avanços tecnológicos cada vez mais presentes no cotidiano. Idosa? Não a dona Maria de São Valentim, interior do Rio Grande do Sul, que foi buscar Brad Pitt no aeroporto de Erechim. Sim. A voz tranquila, o tom convincente. O aspecto normal. Uma senhora chamada Maria, acima de qualquer suspeita. Relatou a brigadistas no estacionamento do aeroporto de Erechim que estava ali porque esperava Brad Pitt. O ator americano? Naturalmente. Relatou que, dali do aeroporto, iriam para um hotel, ficariam uns dias, depois se estabeleceriam em Erechim ou São Valentim. Casariam. Há um vídeo na internet em que esta história é narrada num tom crível. Não parecia uma pessoa convulsa, delirante. O tom era calmo. E a história era exatamente esta: ela, há uns dois ou três meses, relacionava-se virtualmente com Brad Pitt.

O relato de Dona Maria foi gravado por um vigilante do aeroporto, que soltou o vídeo na internet. Viralizou. A vida da senhora virou de pernas para o ar. Que vergonha. Um atestado sei lá de que. Espanta a naturalidade com que a história é relatada. E se não prestamos atenção, de relance, acreditamos no que ela diz. Trata-se de uma figura respeitável, repito. Nadinha com cara de doida.

Dona Maria era uma pessoa solitária? Solteirona? Não. Era casada, tinha filho. Quando eu digo que o casamento pode ser uma redoma. Um camisa de força. Uma bota de gesso na alma. Se fosse uma divorciada, uma solteira, uma que estivesse a par do mundo cão dos relacionamentos hoje em dia, talvez não fosse tão facilmente ludibriada. Mas uma casada pode se engessar com mais facilidade. Aportar num universo paralelo. Casamentos podem tolher a percepção. Zona de conforto dá nisso. Numa rigidez. Quantos estão casados justamente por comodismo, quando o sentimento já acabou? Então, desejos secretos pulsam inconscientes, na calada da escuridão da alma. Pode bastar um fake do Brad Pitt para soltar a porteira de tais desejos, que podem pisotear o bom senso. A noção da realidade. Que realidade? Me deixa com minhas ilusões. Tudo bem. A questão é que, no caso da Dona Maria, a ilusão poderia custar bem caro. Um preço material, além do emocional. Parece que o golpista não chegou a pedir dinheiro.

Um video viralizado na internet, mas que não mostrava o rosto de dona Maria. Que vergonha, qualquer pessoa sumiria, se esconderia debaixo da cama, se internaria num spa, viajaria por uns tempos. Desapareceria. Mas, o que fez Dona Maria? Concedeu uma entrevista para um jornal televisivo local. Ali, dona Maria mostrou a cara. Deu dó. Nos afeiçoamos por pessoa assim, ingênuas. Um grau a mais que ingenuidade, talvez. Olhando Dona Maria de relance, ninguém diz. Precisa-se prestar atenção no que ela fala para sentir seu drama. Rir é tolo, desumano até. A tragédia de dona Maria é também nossa. Quem nunca se iludiu. Começamos a vida acreditando em papai Noel e seguimos acreditando nessas coisas. O fato não merece nosso escárnio. Merece nossa compreensão para que possamos também olhar para a nossa “ingenuidade”. Rimos, fazemos pouco, como se nunca tivéssemos nos perdido numa sala espelhos, entre reflexos falsos. Estamos suscetíveis. Qualquer um de nós. Até os mais espertos. Ninguém pode rir levianamente como se fizesse parte de uma outra humanidade. Não é bem assim. Em tempos de avanço de IA, então. Todo dia uma novidade, um avanço. Daqui a pouco nem em nós mesmos acreditamos. Pode ser falsa a nossa imagem, a nossa voz. E se formos, também, fruto de alguma IA? Plausível. Meros experimentos. E não estamos dando certo, ao que parece. Querem nos substituir. 

Na entrevista, Dona Maria não solucionou a vergonha. Dona Maria a alastrou. Tentou justiçar o ocorrido: tudo brincadeira. Na véspera de Natal, ela teria pego o filho e colocado no carro e os dois saíram por aí e pararam no aeroporto de Erechim. Foi o que ela justificou. O fato narrado aos brigadistas era uma brincadeira com o filho. Colocou o próprio filho na história. Piorou tudo. Mais e mais piadas. Ninguém acreditou na justificativa. Não colou. Em dado momento, ela foi perguntada o que diria a Brad Pitt. Ela disse que sente muito porque a imagem dele também teria sido afetada pelo ocorrido. Oi? Ela acredita que Brad Pitt teve sua imagem afetada pela repercussão do caso.

O que se percebe é que, até agora, ela não acredita que sofreu um golpe. Isto está implícito na entrevista, que vi com cuidado. Não há o que a convença de que ela sofreu um golpe. Está claro. Ela ainda carrega a ilusão de que se relacionou com Brad Pitt, como quem carrega um bibelô que não quer soltar. Ainda que falso, este bibelô enfeita a vida dela. Dá algum sentido, talvez, alguma esperança, alguma força. Vejam bem, ela cruzou a fronteira entre duas cidades numa noite de natal e se postou num estacionamento baldio para aguardar seu Brad Pitt. Aquele relacionamento era forte para ela. A impulsionou a algo completamente inusitado. Aquela fantasia era seu bibelô secreto. Algo de que emanava uma força. E, até a entrevista, ela não abriu mão de seu bibelô, de seu talismã.

Ela não queria o mal de ninguém. Não estava destruindo a vida alheia. Não fazia nenhuma maldade. Apenas esperava seu Brad Pitt na noite de natal.

Imagem: Liliana Wilson, acrílico sobre tela.