A poesia de Ana Cristina César

Quatro poemas dos livros Poética e A Teus Pés (Companhia das Letras).

1/6/20262 min read

Casablanca (livro Poética)

Te acalma, minha loucura!

Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!

Este som de serra de afiar as facas não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardias…

Estas molas a gemer no quarto ao lado

Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia

O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema…

As chaminés espumam pros meus olhos

As hélices do adeus despertam pros meus olhos

Os tamancos e os sinos me acordam depressa na madrugada

[feita de binóculos de gávea e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano]

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O tempo fecha (livro A Teus Pés)

O tempo fecha.

Sou fiel aos acontecimentos biográficos.

Mais do que fiel, oh, tão presa!

Esses mosquitos que não largam!

Minhas saudades ensurdecidas por cigarras!

O que faço aqui no campo declamando aos metros versos longos e sentidos?

Ah que estou sentida e portuguesa,

e agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:

agora sou profissional.

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Luva de Pelica (Do livro A teus pés)

Não sou dada a confidências.

Mas às vezes escorrego.

E deixo escapar um segredo,

um bilhete,

um olhar atravessado.

Depois recolho tudo depressa,

como quem recolhe roupas do varal

antes da chuva.

E guardo no fundo da gaveta,

junto com as luvas de pelica.

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Cenas de Abril (do livro A Teus Pés)

Abril é um mês de promessas.

Mas eu não prometo nada.

Escrevo cartas que nunca envio,

faço planos que nunca cumpro,

ensaios de vida que nunca estreiam.

E no entanto,

há sempre uma esperança tímida,

um gesto que se repete,

um começo que insiste.

Abril é sempre um ensaio geral.

Ana Cristina Cesar (1952–1983) foi uma poeta, tradutora e crítica literária brasileira, associada à chamada poesia marginal dos anos 1970. Nascida no Rio de Janeiro, estudou Letras na PUC-Rio e fez mestrado em tradução literária na Universidade de Essex, na Inglaterra. Sua escrita mistura confissão, diário, fragmento e reflexão crítica, explorando temas como identidade, corpo, intimidade e linguagem.

Publicou principalmente em livretos artesanais e revistas alternativas, e teve livros reunidos postumamente, como A teus pés (1982) e Inéditos e dispersos. Sua obra tornou-se uma das mais influentes da poesia brasileira contemporânea, marcada por tom íntimo, experimental e fortemente autorreflexivo. Ana Cristina morreu em 1983, mas permanece referência central para leitores, escritores e pesquisadoras da literatura.